Skip to content

Rêve de Mode #4: Moda de verão para a cidade

dezembro 27, 2010

“Moda de verão para a cidade – uma apologia às ideias de Flávio de Carvalho” foi escrito especialmente para a revista digital “Rêve de Mode #4”.

Em uma manhã de primavera de 1956, para ser mais exato em 18 de outubro, um homem de 57 anos, de aparência respeitável e sã saiu pelas ruas do centro de São Paulo.Usando uma sai branca acima do joelho, camisa bufante recortada em listras de um tecido transparente, meias estilo arrastão e sapatilha. Causou enorme comoção, sendo seguido por muitos curiosos, todos em seus ternos escuros ou roupa social. Quem era aquele homem?O que ele fazia ali desafiando com o seu traje risível o código do vestuário masculino daquele período?

Era o artista plástico paulista Flávio de Carvalho. Ele escolhera aquele dia para lançar seu traje ideal para o verão nos trópicos. Não se tratava de uma roupa feita para causa escândalo, mas foi resultado de uma longa pesquisa e desenvolvimento de uma técnica para encontrar uma vestimenta adequada para o calor brasileiro. Ele explica seu new look (que também foi apresentando em Milão em novembro do mesmo ano, depois de São Paulo ter ficado escandalizada em ver) em um dos seus artigos, intitulado “Moda de verão para a cidade”. Esse novo traje para o verão foi totalmente idealizado pensando na ventilação do corpo, dando liberdade de movimento e tentando evitar o calor excessivo, era um compromisso do criador com uma identidade nacional.

Flávio tinha uma visão particular e fascinante sobre a moda, principalmente a masculina. Ele a estudava com a ajuda do seu amplo conhecimento da história da arte (desde a antiguidade até a sua época), as formas, cores e proporções das obras de artes para ele se mesclavam ao entendimento de como as roupas foram sendo criadas. Moda e arte como produtos da imaginação humana pertencentes a uma determinada da cultura e ao tempo

“A moda pertence aos domínios da fantasia, portanto da grande criação do espírito humano. É pelo uso do trajo que o homem e a mulher ousam entrar em contato uns com os outros.É esta ousadia que permite a existência e a realização dos laços afetivos.(…)A fantasia e a imaginação é aquilo que o homem tem de mais precioso porque representa não somente os seus anseios mais profundos mas também mostra alguma coisa dos limites de capacidade emotiva e cerebral ou da falta de limites.”

Para ele a moda masculina era dominada por cores sóbrias e pela calça, colete e casaca, modificada para o palitó, herdados do século XVII (realmente o terno de três percas foi inventado em 1660).A perspectiva dele vinha dentro de toda uma evolução histórica da vestimenta, passando por tantas culturas e contexto, isso confere possibilidades múltiplas de criação. Por que então ficamos presos a uma única forma de se vestir?

A imagem utópica do traje de verão idealizado por Flávio de Carvalho ecoa como um grito, quase esquecido, por esse desejo de libertar o homem da sua visão tradicional do que vestir. Acredito que esse devaneio criativo dos anos 50 dialoga com duas especiais propostas para o verão 2011, feitas por João Pimenta e Yohji Yamamoto. Eles resgatam imagens antigas das roupas masculinas e as desconstroem em propostas atuais. Pimenta investe num dândi tropical carioca e Yohji passeia pela história da alfaiataria masculina desde o século XVII, num belo panorama que situa a construção do guarda-roupa dentro de uma visão evolucionista. Mais que fazer sobreviver a representação do desejo masculino de se expressar pelo que se veste, propõe uma relação mais intimista do homem com a roupa. Talvez perdida graças ao pensamento limitador, machistas, que construiu em muitos lugares (principalmente no Brasil) um distanciamento do homem com a subjetividade que as roupas podem representar.

O verão é a estação por excelência do desejo pela do prazer e também das lembranças das férias, dos veraneios, da fuga da vida quente e sufocante na cidade para algum paraíso, mesmo que imaginário. E isso se reflete muito na moda, por isso imagens tão clássicas dessa estação retornam com tanta força os florais, rendas, estilo navy, as cores queimadas de sol, as transparências….Escapemos para dentro dos nossos guarda-roupas e o remontemos envolvidos pele fantasia, pelos sons do verão, pelo calor, pela liberdade que o corpo pede,pela paisagem que nos rodeia… Se enxergarmos as roupas que usamos hoje, como sobrevivente de um passado propondo sua “magia” (como diria Flávio) para o agora. Se usarmos essa anarquia do calor para nos vermos como seres também lúdicos, vagando por espaços repletos de reflexos iguais, abriremos as portas e todas as janelas para o chamado da natureza, que diz que o novo sempre vem. No qual nosso desejo poderá encontrar um alento através da diversão que é o vestir e despir essas segundas peles, armaduras, telas em branco que chamamos de roupas.

Fotos do fotógrafo baiano Tiago Lima, 28 anos.Seus trabalhos já foram veiculados na mídia impressa e eletrônica entre os mais recentes estão: Portal IG Moda, Editora Trip, Jornal A Tarde, Revista Espresso (SP), Correio da Bahia, Estado de Minas, Revista Idéia Fixa, Editora Paul Zsolnay Verlag (Áustria), Agência The Classic Partnership Group (Dubai).

Como fotógrafo de moda participou de eventos como São Paulo Fashion Week, Fashion Rio e Minas Trend Preview. Além de ser responsável por editoriais e campanhas publicitárias em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.Atua também como fotógrafo nas artes cênicas e vídeo still.

One Comment leave one →
  1. Jeferson Ribeiro permalink
    dezembro 27, 2010 2:51 pm

    Leo, o Flávio é uma aula magna de design! Tinha o que falta hoje nas pessoas: o olhar crítico e analítico para a vida, muito bem empregado no vestir. Muito mais do que o olhar de historiador, ele pensou a indumentária em diálogo com as cidades, inseridas numa

    Abraços!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: