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EU VEJO O ESTRANHO EM MIM

outubro 16, 2010

Esse post nasceu do desejo de falar um pouco mais sobre a construção do estilo pessoal, combinando a leitura de “Moda: uma filosofia” (em especial o capítulo “Moda e corpo”) com a provocação do Pensando em Moda, “Onde você vê o estranho?“. Para mim, entender alguns processos no nível pessoal, me permite  enxerga-los de uma melhor forma, quando ampliados.

Em outra Breves Divagações falei sobre esse tema. Ainda bem que naquela post disse, que isso é algo constante, mutável. Posso ter tratado o tema como algo linear, óbvio, baseado em varientes estáveis, quando não é.

A relação que temos com o nosso corpo é fundamental para que possamos construir uma estilo de expressão pessoal pelo vestuário, que seja identificável. Isso passa pelo reconhecimento dos limites ou não da nossa estrutura física. “O ego é construído em grande parte por meio da apresentação do corpo.” (Lars Svendsen, pág.84)

Tentamos reconhecer o nosso corpo em outros modelos de corpos, através das nossas relações sociais. Somos inudados por uma quantidade infindável de referências, padrões, imagens, que absorvemos e começamos a desejar copiar, em busca de uma aceitação. E quando não nos enquadramos no padrão de beleza regente (seja num plano geral, ou dentro de um grupo social em que desejamos pertencer)? Modificamos nosso corpo ao máximo? Corremos o risco de sermos falsas imitações sem identidade?

“Em todos os todos os períodos, é claro, há vários tipos de semblantes, mas somente um será escolhido pelo gosto de certo período como sua imagem ideal de felicidade e beleza, enquanto todos os demais fazem o possível para copiá-lo … Mas há alguns rostos que nunca  o conseguem, rostos nascidos para uma estranha distinção própria, expressando absolutamente o ideal de beleza esplêndido e banido de um período anterior.” (Robert Musil, citado por Svendsen, pág.91)

As noções (conceitos) de “belo”, “natural”, “anti-natural”, “feio”,”estranho” são construídos dentro de um cotexto histórico e social. Sendo modificados constantemente. O meu desejo é fazer uma apologia ao conceito do estranho, entendido como uma proposta estética alternativa ao conceito de “belo” regente ou aceito como padrão. Nessa minha defesa o estranho é o que não adormece nosso olhar  com a mesmice, propõe a singularidade e o choque com o que não estamos acostumados a ver.

Convivi num curto período, durante um evento de moda local, com algumas modelos baianas – a maioria delas negras – trabalhando com meninas de São Paulo e do Rio Grande do Sul – com seus traços europeus. Algumas baianas se mostravam tão inseguras com os seus traços éticos. Reclamavam dos lábios carnudos, do cabelo crespo, dos seios pequenos, sem perceber que essas características que tanto as “incomodava”, era o que as tornavam tão singulares.

Isso me tocou particularmente, porque percebi nelas os erros que estava cometendo comigo mesmo. Não me enquadro em um padrão de beleza. Se sentir inadequado amedronta. Porém, é libertador reconhecer isso. Porque, eu vejo o estranho em mim e ele é inspirador. O estranho inquieta, incomoda,é caótico e nos causa rejeição, mas há algo de verdadeiro e original nele. E precisamos, encarar a nós mesmo como únicos e não cópias. As inspirações estéticas podem vim de uma infinidade de fontes, mas desejo aceitá-las de forma mais criativa, livre e não como padrões rígidos a serem seguidos. O estranho contém essa anarquia, que precisamos tanto,para que não nos percamos.

8 Comentários leave one →
  1. outubro 16, 2010 3:33 pm

    Adorei o post!! realmente a construção de uma imagem pessoal e algo extremamente criterioso !

  2. outubro 17, 2010 7:29 am

    Lindas palavras Leo!

  3. outubro 17, 2010 4:52 pm

    Um dos melhores posts de identidade que eu já li. Realmente inspirador.

  4. outubro 18, 2010 10:10 am

    Já pode usar esse post pra vida?

  5. Samuel permalink
    outubro 19, 2010 12:00 am

    Interessantes apontamentos esses que vc fez!! Escrevo a primeira vez aqui, só agora senti essa necessidade diante dessas palavras. Como é feérico esse universo das aparências, a moda é como a vida, cheia de contorções, ela nos expõe aos opostos e ao pior e melhor de nós mesmos. Exige de nós a originalidade que acaba equalizando a todos, penso que uma maneira de ‘escapar’ é justamente buscar em si esse estranho que nos habita, como vc disse existe nele uma legitimidade discorcertante e que por ser como tal se mostra bela!. Eu disse que moda é vida, porque ela é toda pulsação, por isso é fundamental que se discuta essas categorias dentro dela como a arte já o fez na primavera do século XX, só dilatando nossos olhares e gostos é que viveremos em equidade com o outro. Eu sou a lhama na foto!! hahaha !! A foto mais “faxion” que vi, de quem é??!!

    • Leo Amaral permalink*
      outubro 19, 2010 8:02 am

      Samuel,

      Obrigado pelo seu comentário e sinta-se a vontade para sempre deixar sua opinião. Quanto a foto do lhama, infelizmente não encontrei a autoria. Me deparei com ela numa pesquisa no google e ela me impactou bastante. Grande abraço.

  6. Gustavo permalink
    outubro 20, 2010 10:50 am

    Leo, você é demais!

Trackbacks

  1. O ESTRANHO DE 2010 « Cool in the Heat

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