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“Romance is a ticket to paradise”

agosto 31, 2010

Já tem algum tempo que se percebeu o retorno – ou, ao menos, a tentativa – um homem de outrora, cuja demarcação territorial que traça a alteridade macho e fêmea está aí implicada. O olhar para o século XIX trouxe para as cidades o  dandismo, moda cultural surgida no interior do Romantismo como via de escoamento da decepção e ceticismo característicos do mal do século.  Deste fenômeno, pode-se pensar que a elegância dos trajes e o conforto nas boas estéticas representavam uma fuga ao existencialismo sôfrego daquele tempo.

Mas, e agora … retornou por que? Ademais, podia-se perguntar: de que sofre o homem hoje?

Se o dandismo reforça a idéia lacaniana de que “o belo é uma defesa ao real”, estruturado como resposta frente à exaustão depressiva dos byronianos tuberculosos, a idéia de um “mal estar”, na contemporaneidade,  parece não caber, não contentar nenhuma lógica aparente. O discurso de que o homem hoje está em vasta feminilização também não acolhe a demanda masculina pautada em tantas revistas em que se endossa a necessidade do retorno de alguma virilidade.

O homem viril. Ainda dá pra acreditar nisto? Vá ao interior, em algum lugar em que o discurso feminista e sua ação afirmativa dentro do estado de direito não tenham tido alcance, e este espécime exótico talvez exista. Mas isto não se porta mais como regra.

New Romantics

Assim gosto de pensar o dandismo urbano. É um retorno ao amor cortês, da dama lânguida, do cavalheirismo num tempo em que o imperativo, como diz Bauman, é do amor líquido, fluído ou pensado em suas relações fugazes e efêmeras, como postula Gilles Lipovetsky. Com um pouco de esforço – e mesmo vontade de que algo na contemporaneidade faça sentido! -, podemos traçar esta linha argumentativa: após a ressaca dos anos noventa em que se apontou, seja pelo movimento feminista musicalmente alertado pelas riot girls, seja pelas guitar bands masculinas que em seu cerne trazia um homem franzino que debocha da virilidade grosseira, que é preciso delimitar  o que faz de um corpo sexuado, homens ou mulheres.

Talvez, o primeiro grande ícone dos que aqui nomeei New Romantics tenha sido o Morrissey, quando na década de 80, resgatava o elogio ao amor, soletrado na dificuldade de se alcançar a felicidade e plenitude na relação a dois – ou três, ou mais. Há, aí exposto, um abismo sem mediação para qual este lugar – dO Homem em sua alteridade visível- encontra o buraco. E o que é mesmo ser um homem? Beauvoir avança no estudo sobre o ser ao pontuar que não se nasce mulher, mas torna-se mulher. Entretanto, o seu par-alteridade, o homem, já é, neste momento, posto, existente, como se algo nele pudesse lhe conferir a existência a despeito de alguma construção social.

É sobre esse vazio de sentido – que não ressoa mais como certo, mas, antes disso, uma dúvida -sobre o que pode ser a marca da masculinidade na contemporaneidade que pode advir o resgate romanticista. Aí, mesmo que interpenetrado num terreno urbano versátil, assinala que para um gentil e elegante rapaz, há um mundo a sua espera. E, sobretudo, que o encontro com o amor – seja o encontro com a mulher, ou apenas com seu objeto que lhe cause desejo – também é possível.

Que aqueles que, hoje, se autorizam homens não se recolham ao celibatário, justificado no enunciado morrisseyano de que “a carne é um assassinato”. Da estética, aquela que permite que não sejamos tomados por um real sem qualquer mediação, deixando-nos a mostra do feio, repetido, intragável – possa-se fazer um homem. Porque O Homem … este, não mais existe.

 

 

 

 

5 Comentários leave one →
  1. agosto 31, 2010 8:28 pm

    Tenho visto grandes mudanças no cool in t.., deixo aki aki os meus elogios assim: tá d+ mesmo, excelente esses textos, tem sido cada vez mais conteporaneo, super vanguardista…
    ahh adorei a matéria sobre o Hercovitch

    • Leo Amaral permalink*
      agosto 31, 2010 9:10 pm

      Isac,

      Obrigado pelos elogios. Comentários como o seu nos motiva a continuar aprimorando o blog!

    • COTELGRAMPS. permalink
      setembro 1, 2010 4:47 am

      Estamos com umas idéias mirabolantes. Em breve, surgirão mais coisas. Aguarde e confie.

  2. agosto 31, 2010 10:19 pm

    Leo o seu site esta na minha lista de favorito a um tempinho, sempre com materias cotidianas que fazem agente parar e ver o que esta sendo feito no dias de hoje,podendo ser na cultura ,moda e ate mesmo nos novos esteriotipos (n sei se tah certo !rs) do homem de hj, vc foi buscar uma explicação literaria para a coisa, ja vinha percebendo a um tempo isto e me identifico com isso…ultimamente sempre me pego viajando e procurando em minha mente uma pessoa perfeita a ser amada,coisa para o resto da vida entende?! isso tudo embalado pela musica there is a light that never goes out ,dos Smiths.

    • COTELGRAMPS. permalink
      setembro 1, 2010 4:49 am

      Não tem como pensar num Novo Romantismo sem apelar pra qualquer trilha sonora do Smiths, não é? É incrível como é contemporaneo e eterno, as rosas brancas, um ennui. Obrigado pelo comentário.

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